Viajar o mundo em busca de ingredientes especiais nunca foi privilégio dos grandes chefs. Antes de cada temporada, ai do fashionista que não sair do lugar-comum em busca de elementos novos. No entanto, não basta copiar um cardápio estrelado para encontrar a receita perfeita, sinônimo de novidade e sucesso comercial – é o gosto diferente que seduz, empolga, convida à experimentação. Pois havia muito que não se via um cardápio fashion tão eclético quanto nas últimas semanas de moda nacionais. Ao fugir dos destinos Londres, Paris e Nova York, criadores daqui incrementaram a moda tipicamente brasileira com temperos inusitados, originários de lugares como Alemanha, Alasca, Istambul, Japão e Rússia, do Oriente e do Ocidente. Caso de Alexandre Herchcovitch, Cantão, Mara Mac, Santa Ephigênia e Walter Rodrigues, entre outros. O resultado é uma fornada outono-inverno 2010 no ponto para provocar o apetite do consumidor.
Não apenas os gastronômicos sashimis, sushis e afins, mas toda a cultura nipônica integra o cardápio do criador paulistano Walter Rodrigues. “Muito da minha moda vem daí, desde as primeiras coleções. Eu cresci num bairro japonês de São Paulo e vivi esse entorno, que mais tarde se expressou na minha roupa.” A nova coleção, no entanto, tem ao mesmo tempo gosto de novidade e reestreia. É como se o estilista, que apostou também em outras linhas ao longo do tempo, mergulhasse de cabeça em sua essência. “Nunca saí muito disso, mas no Brasil têm mania de codificar o criador. Então, por um tempo, fui o Walter especializado em roupas de festa. Mas desde o último verão, com a abertura da primeira loja própria da marca, decidi tocar novamente o que considero meu DNA, que é fazer uma roupa confortável, que visa ao cotidiano. Não é um olhar saudosista, anos 1980, mas o desejo de reinventar essa essência, de testá-la em novas matérias-primas, com o olhar de 2010.”
Ingredientes especiais O resultado é uma temporada que traz como ingredientes especiais tecidos brutos e texturizados (muitos com aparência de elementos orgânicos como cascas de árvores, rochas e água), volumes generosos e formas geométricas, fluidas e longilíneas, em peças como quimonos, casacos, saias amplas e calças. Sobrepostas, inspiram aconchego e conforto. Para quem usa o preto como marca registrada (presente também no inverno), a cartela de cores não deixa de ser um convite de Walter ao público: oliva, branco, marinho e vermelho. Com mais de 30 anos de carreira, o criador aponta o principal ingrediente de seu estilo. “Se um louco faz, um louco vai comprar. Sempre tem a pessoa certa com a roupa certa. Não me preocupo em fazer grande sucesso comercial, mas procuro criar para que entendam a essência do meu trabalho, sintam-se felizes, se completem com ela.”
O tempero estrangeiro também é recorrente nas criações de Luciano Canale, estilista da carioca Santa Ephigênia (que optou por desfilar no Fashion Business). Desta vez, contudo, ele inverteu esse olhar e se inspirou nos Muckers, comunidade de imigrantes alemães que vive no Rio Grade do Sul. “Imigração tem a ver com minha a minha história, já que sou descendente de italianos e alemães. E quis mesmo falar de terra, aconchego, casa, das coisas naturais, dessa vida mais tranquila, pacata”, registrou. Daí o uso de algodões no lugar da sempre prestigiada seda, além de linho e tecidos tecnológicos, que respiram. Quando questionado sobre o sabor de uma receita tão inusitada (já que até então era difícil imaginar o visual austero dos Muckers numa cena fashion), Luciano comenta que a moda tem inúmeros significados. “Abre precedentes para questionar tudo, é sociológica, política. E eu também passei por um período de questionamento, quis expressar o desejo de não ser colonizado.”
Basicamente diurna, a maioria da coleção é formada por peças em alfaiataria e camisaria. Diferencial também fica por conta do comprimento de calças, saias e vestidos, na altura da canela. Na avaliação do estilista, a mistura deu certo. “ Tivemos um retorno surpreendente, vendemos superbem. Estou satisfeitíssimo.”
Para mais longe viajou a Cantão, na última coleção da marca assinada pela estilista Yamê Reis. Em visita à Istambul, rota da seda, ela definiu os traços de um inverno denominado Entremundos, em que celebrou a convergência de culturas, misturou referências daqui e de lá, evocou a interseção entre Oriente e Ocidente. Em síntese, Yamê se valeu dos ingredientes da região, mas aplicou o próprio tempero. Um exemplo é a intervenção sobre os suzanis, bordados tradicionais em formas de mandalas, que ganharam traços mais contemporâneos. Também investiram em ingredientes raros Alexandre Herchcovitch (que prestou homenagem ao diretor Sergei Paradjanov (1924 – 1990) nascido em Tbilisi, Geórgia, na antiga União Soviética), TNG (com a cultura esquimó) e Mara Mac, inspirada pelos mares gelados do Norte da Europa. Como se vê, a moda cria receitas para todo o tipo de gosto, paladar e freguês.
Jornal Estado de Minas |